A caixa
Aquela velha história: você no meio de uma multidão, mas você se sente sozinho. Tudo continua funcionando como sempre esteve, mas poxa... como ficou chato viver de repente. Nada de TPM. Essas explicações hormonais-científicas não justificam a tal da... solidão, que bate de repente quando tudo está funcionando direitinho.
É culpa dessa memória curta e que funciona quando quer, que às vezes corta momentos - e pessoas - que não deviam sair da nossa consciência nunca. Pois então. Uma resposta pra solidão? Caixa.
Caixa. Uma velha, daqueles sapatos ridííííííííículos de verniz que você comprou nos anos 80 achando que tava abafando. Essa mesma. Dentro dela, um ótimo tratamento para um coração que de repente se sentiu solitário - e até ri de si mesmo por esse sentimento repentino e sem sentido. Fotos. Cartas. Convites. Cartões de aniversário. Até aqueles bilhetinhos que dão pra você na escola de inglês junto com um sonho de valsa na Páscoa. Os amigos do passado (onde estarão eles hoje...) voltam a conversar, de uma forma sincera como nunca. Cartãozinho de aniversário da tia, bilhetinho de colégio da colega do fundão, cartas... Quanto tempo faz que você escreveu uma carta? Cartas têm cheiro, letra, cor, alma e não ocupam dois gigas do seu micro que podem ir embora com qualquer batida. A carta amarela, mas pode cair no chão. E daí se amarela? Seu cabelo cresceu, a pele descobriu novas manchas, o braço ficou mais roliço.
É, o tempo passou. Um monte de gente passou, mas ficou. Dá pra entender? A cor da carta diz. O desenho ridículo de um convite de aniversário também. A letra da mãe, o perfuminho do papel de carta (viva as grandes coleções de papel de carta), o carimbo de um país bem distante, que naquela época abraçava um grande amigo que lembrou de você. A tia que lembrou de você. A mãe que tinha uma criança - quem diria, hein, continuou pequena. A amiga que depois ia embora. A amiga que ficou. O colega da escola que puxava o seu cabelo. As profes, a secretária da escola. Todo mundo que não está com você há muito tempo e que... tcharam, acabaram com a sua solidão.
É um grande abraço. É engraçado, porque justamente pessoas que não estão mais com você acabaram com aquela solidõzinha que cutucava um cantinho de você. Ops! Será que não estão mais mesmo?
... é a grandeza da alma.
Cuide bem da sua caixa. E guarde a das sandálias novas deste verão. Daqui uns dez anos elas podem fazer muito mais sentido que você imagina.
Fatos não deixam de existir por serem ignorados (Aldous Huxley).
Ou esquecidos.
Escrito por ela mesma às 16h24
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